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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Rave II

Entendi que o centro da socialidade de uma festa Rave podia ser localizado nos novos significados culturais e comunicativos das novas gerações metropolitanas e, portanto, nos vínculos comunitários produzidos pela música, mas também naqueles criados pelas novas formas místicas que se exprimiam nos estados de alteração provocados pela combinação som-drogas. Me reanimei, voltei a observação a tais novas direções e voltei a campo.
O primeiro elemento, aquele ligado aos vínculos comunitários musicais, não me pareceu, desde o início, um vínculo particularmente coercitivo. Obviamente, a cultura da música eletrônica, da House Music e de todas as suas derivações, estimulava o interesse dos freqüentadores, mas não no sentido tradicional, ou seja, não certamente nas formas e nos significados das vanguardas musicais ou das comunidades surgidas através dos diversos estilos e gêneros musicais. Portanto, abandonei também tal abordagem e me voltei com convicção ao aspecto místico.
A relação música-dança-trans, a crise das formas religiosas tradicionais, o advento da new age e a crise das formas ideológicas do social, tinham aberto espaço ao surgimento de novos significados. Uma primeira constatação era relativa à ausência total do elemento ritual, evidente do fato que nas Raves não se percebia nenhuma forma de coletividade, nem de coesão de pequenos grupos. Dever-se-ia, no caso, pensar em uma forma individual de mística, que emergia nas formas solitárias da dança que se desenvolvia sem o tradicional elemento de aproximação entre os sexos. Os corpos se moviam autonomamente e, sobretudo, sem nenhuma comunicação entre eles. Além disso, o elemento místico era sedutor, ainda mais se ligado às suas inéditas expressões imanentes, que pareciam indicar um contato direto e físico com o desconhecido, todavia não era, sozinho, suficiente para explicar as formas solitárias de convívio assim tão diversas daquelas grupais e dionisíacas das discotecas tradicionais. Nenhuma sedução, nenhum ritual de fim-de-semana, nenhuma evasão das normas e dos costumes morais, nem espaço de encontro e de difusão de culturas alternativas ou, de certo modo, de ritualidade e de significados coletivos. Se o movimento hip hop tinha expressado naqueles anos também os valores e elementos de uma cultura orgulhosamente marginal, praticamente com expressões diferentes em todas as metrópoles, não se podia dizer o mesmo das Raves e dos seus freqüentadores.
Uma agregação sem cultura nem significados sociais, uma espacialidade extra-social... Continuava a procurar possíveis interpretações, mas, no final sempre me restava algo difícil de entender, o centro da questão continuava a escapar-me. Nem o estudo dos estilos e das suas variações se revelou útil a tal propósito. Concluí, assim, que também a pesquisa dos significados rituais, místicos ou coletivos, não tinha me conduzido a um nível interpretativo satisfatório para mim.
Tinha entendido que nem mesmo a interpretação antropológica me permitia, como aquela sociológica, compreender a fundo o sentido das agregações das festas Rave... Quando, (como acontece nesses casos) sem um porquê definido, “tive uma luz”.
Cansado de observar as interações entre os presentes, me pus a observar as performances dos DJs e os seus efeitos sobre o público. Me pareceu, súbito, que a relação entre o DJ e o público era completamente diversa daquela dos shows de rock onde se tinha, sobre o palco, a exibição do artista e, da outra parte, a presença dos fãs-expectadores. Aqui a interação era de outro tipo e não só pelo fato relativo ao diálogo contínuo com o público, como sempre revelado pelas declarações dos DJs que admitem a necessidade de interação como um elemento fundamental para a seqüência das suas intervenções, mas também devido à pouca presença de palco do DJ, que se mantinha praticamente quase escondido, passando quase sempre completamente despercebido. Disso compreendi que nas Raves as relações e as formas de socialidade não eram antropomórficas, ou seja, não aconteciam somente entre sujeitos, grupos etc., mas entre corpos, ondas sonoras, circuitos elétricos (seqüenciador, computadores, mixer, amplificadores etc.) e drogas sintéticas. Decidi parar de observar os comportamentos e as pessoas que freqüentavam as Raves e passei a observar as instalações, os refletores de luz, os amplificadores e as mesas dos DJs, as caixas e os circuitos elétricos que não só produziam música, mas criavam um ambiente, determinando uma situação social transorgânica.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Rave I


Várias vezes procurei fazer uma observação participante em uma festa Rave ou em um evento de música eletrônica. Desde o início sabia que, mais do que observar a situação social, o que acontecia, as dinâmicas dos grupos, as formas de interação, os estilos estéticos etc., eu deveria "sentir".
As primeiras experiências, ainda como sociólogo, me ensinaram, em um breve tempo, que, dentro de uma Rave não existiam grupos, nem - tudo somado - socialidade, ou seja, dinâmicas reconhecíveis de "tribos" urbanas ou de pequenos coletivos estéticos. Às vezes me parecia que 4 ou 5 Clubbers se distinguissem porque dançavam próximos, mas, em pouco tempo, o grupinho se desfazia e cada um planava em outro lugar. Era como se, uma vez superada a entrada, o social terminasse e, com ele, também as formas de individualidade estética.
Voltando para casa, sempre ao amanhecer, o meu caderninho, onde costumava recolher as minhas observações e anotações, era praticamente vazio.
Procurei, então, organizar uma tipologia de eventos, distinguindo-os, seja em termos de organização, seja em termos topográficos. Ao lado das grandes reuniões urbanas, geralmente patrocinadas por grandes empresas, aconteciam os encontros extra-polis, ou seja, em contextos naturais e ao ar livre. No caso do Brasil, eles se desenvolviam, sobretudo, no litoral ou no interior, em fazendas - aconteceram algumas raves na floresta, na Amazônia, ou na Mata Atlântica. Mas, com o tempo, também esta divisão me pareceu pouco eloquente. O limite entre a festa privada com convite no estilo das TAZ, ou aquela mais institucional, com DJs internacionais e grandes patrocinadores, pouco a pouco foi se tornando sutil e foi enfraquecendo. Me lembro que na época tinha pensado em interpretá-las à luz da TAZ e das interpretações fornecidas por Hakim Bey sobre as formas de apropriação temporária dos corpos e dos espaços e também sobre a crítica às formas dialéticas do habitar político. Mas, como o tempo passou, me dei conta que o imaginário da zona temporariamente liberada era quase ausente e que, sempre mais, as Raves se propunham mundialmente dentro de uma certa institucionalidade, seja em termos de organização, seja em termos de espaços. A última interpretação sociológica possível era, obviamente, aquela que remetia às velhas lógicas de classe e de exclusão, ou seja, à distinção entre as Raves com o bilhete de entrada caríssimo e aquelas gratuitas, ou quase. O que removeu tal pensamento, que no desigual contexto social brasileiro se impunha com força, foi a exibição de um filme-documentário, realizado por alguns alunos da ECA, que tinha como proposta aprofundar o tema.
O filme - com um título polissêmico como "Cavalo de Tróia", que fazia alusão tanto ao estratagema para realizar a invasão na cidade inespugnável, quanto ao conhecido vírus difundido naquele período, mostrava as diversas formas criadas pelos rapazes menos abastados para entrarem nas raves evitando o acesso oficial e pagar o bilhete.
A câmera seguia as saídas das passagens na floresta, os percursos ásperos feitos para contornar os controles de ingresso e permitir a entrada de todos. Ainda: nas entrevistas parecia evidente que fosse este, para os grupos que se aventuram nos percursos acidentados, o elemento eletrizante e transgressivo que substituía as velhas formas de reapropriação dos espaços tradicionais.
Enfim, nenhuma pista satisfatória que pudesse me re-propor uma ordem social no interior da qual interpretar sociologicamente o evento. Não me dei por vencido e retornei à tarefa, desta vez com o olho apropriado que, mais do que sobre as dinâmicas sociais, propunha-se a colocar o acento sobre aquelas dinâmicas corporais e sobre as formas ritualísticas e simbólicas das raves.
Optei por uma experiência etnográfica que revelasse, através da observação antropológica, os significados sócio-culturais que não conseguia decifrar com as categorias interpretativas da sociologia.